O que é realmente ser contra a corrupção nesse país? Diz o bom senso que devemos combatê-la independente de nossas visões políticas ou paixões partidárias. Não é o que acontece no Brasil. Aqui se combate a corrupção só de um lado para defendê-la do outro. Aqui olha-se primeiro para os interesses do partido, depois para o país (isso se olhar). O ano de 2010 traz exemplos flagrantes dessa arte. Primeiro quando saiu o filme do Lula, e depois na própria campanha à presidência. Até aqui, 2011 tinha sido meio morno nesse aspecto, mas petuscos (os petistas hidrófobos) e tucaneiros (os tucanos hidrófobos) foram despertados de suas catacumbas. As recentes marchas anti-corrupção feitas no país os colocaram em confronto mais uma vez, usando sua indignação seletiva como instrumento político-partidário. Se no Brasil todos os partidos se servem à vontade no buffet da corrupção, petuscos e tucaneiros preferem pedir a la carte, usando ingredientes cuidadosamente selecionados. Vamos então conhecer os pratos prediletos dessas duas estranhas criaturas de nossa fauna política.
PETUSCOS:
1) Lula é um semi-deus e está acima do bem e do mal, enquanto que FHC é a própria encarnação do diabo, um “neoliberal entreguista”;
2) Atacar sempre que possível o mensalão do DEM e o valerioduto tucano de Minas, mas negar até a morte que tenha existido mensalão no PT — afinal, tudo não passou de uma grande conspiração da “direita” para derrubar o governo Lula (ignore também o processo no STF e defenda José Dirceu, José Genoíno e toda a turma — afinal, “não há provas suficientes” para condená-los);
3) Critique a política econômica “neoliberal” dos tucanos, mas relativize o fato de que Lula e Dilma mantiveram as mesmas bases, mas com uma maquiagem mais “social”;
4) Acreditar que Lula refundou o país no dia 01/01/2003 e que tudo o que deu certo no Brasil foi obra sua, enquanto que o que deu errado foi “herança maldita” dos tucanos;
5) Odeie com todas as suas forças as privatizações, mas exalte todos os saltos do governo Lula no setor de Telecom e na inclusão digital aos mais pobres (se possível, aproveite para fazer propaganda do plano nacional de banda larga);
6) Repudiar a “faxina” da Dilma, pois trata-se de mais uma conspiração da mídia para desestabilizar a base aliada e colocar os governos Dilma e Lula em conflito.
Palavras-chave do vocabulário petusco: “preconceito”, “mídia”, “elite”, “fascista” (ou “facista” — alguns escrevem errado mesmo), “golpista”, “direita”, “demo-tucano”, “neoliberal”, “privatista”, “PIG”
Porta-voz: Paulo Henrique Amorim
TUCANEIROS:
1) FHC é o maior estadista que esse país já teve e Lula é um “bêbado ignorante” que só sentou na cadeira e não fez absolutamente nada;
2) Acreditar que a corrupção foi inaugurada no governo Lula e que antes de o PT chegar ao poder o Brasil era um exemplo de ética e valores republicanos, omitindo os conchavos nas privatizações das teles ou a compra de votos na emenda da reeleição;
3) Nos porões do PT, Lula e Dirceu tramam uma conspiração “comunista”, mancomunados com as Farc, Hugo Chavez e toda a turma de “marxistas” e “guerrilheiros”;
4) Criticar as alianças do PT com a direita, com o PMDB e oligarcas como Sarney e Collor, mas fazer acordos com o mesmo PMDB, ficar pendurado com os coronéis do DEM, se aliar a Roberto Jefferson e dar cargos ao PP de Maluf;
5) Criticar com veemência o “aparelhamento” da máquina do estado feita pelo PT, mas ignorar parentes e apaniguados tucanos na máquina dos estados em que o PSDB governa;
6) Exaltar as políticas sociais de FHC e atacar com máxima ferocidade o “bolsa-esmola do Lula”, que só dá dinheiro para “vagabundo encher a cara de pinga”.
Palavras-chave do vocabulário tucaneiro: “petralha”, “bolsa-esmola”, “guerrilheira” (em referência a Dilma), “apedeuta” (em referência a Lula), “marxista-leninista”, “aparelhamento”, “esquerdóide” (e similares), “lulista”, “lulo-petismo”, “pelegos”
Porta-voz: Reinaldo Azevedo
Aí está, esse é o contorcionismo ético que os chacais do governismo e do oposicionismo fazem ao se indignar com a corrupção no Brasil. Não sei se você notou, mas por enquanto somos apenas um país de corruptos bradando contra a corrupção (tragam um espelho, por favor!).
Novas marchas continuam sendo arregimentadas nas redes sociais. Se quiserem protestar contra a corrupção, ótimo, mas recomendo que deixem suas camisas, bandeiras e discursos partidários em casa. Quando tentam transformar um sentimento geral em sentimento do partido (como aconteceu em São Paulo), o protesto perde sua relevância e peso político. Por enquanto, continuo cético em relação a essa questão.







